
Os Estados Unidos são campeões em transformar em arte todos os momentos ruins pelos quais passam. Guerra do Vietnã, da Coréia, Mundial, do Iraque, atentados terroristas, assassinatos famosos, desastres naturais viram literatura, quadros, canções e filmes graças à curiosa e interessantíssima história daquele país. A inspiração do momento é a recessão. Foi oportuno para Jason Reitman, que escreveu o roteiro de
Amor Sem Escalas em 2002, mas só agora conseguiu rodá-lo e colocar nos cinemas.
Reitman, realizador de Juno e Obrigado Por Fumar, consegue dirigir outro filme incrível. Para contar a história de um sujeito cujo trabalho é demitir pessoas de empresas, logo na primeira cena ele usa imagens de pessoas que foram demitidas na vida real contando para a câmera tudo o que diriam para aquele FDP. Então ficamos conhecendo o cara: Ryan Bingham (George Clooney), homem sem raízes, cuja única propriedade é um apartamento em Omaha tão mobiliado quanto o quarto de um hotel barato na rua Augusta. Bingham passa a vida dentro de aviões, pulando de empresa em empresa, dizendo para os funcionários aquilo que os seus chefes não tinham culhões de dizer: você está demitido.
É a partir dessa figura que se desenrola toda a trama. Ele gosta de viver assim. Sem um lugar que possa chamar de lar, sem conexões verdadeiras, sem um grande amor. Viajamos por muitas cidades, como Dallas, Tulsa, Detroit, Des Moines, Kansas City, mas Amor Sem Escalas não é exatamente um road-movie (talvez um air-movie?). O conflito acontece quando Bingham conhece Alex (Vera Farmiga), uma trintona misteriosa, muito charmosa e – o mais importante - com o mesmo tipo de trabalho que ele. Começa um relacionamento que para ele é como qualquer outro: Livre de laços sentimentais ou qualquer coisa do tipo.
As coisas só mudam de figura quando ele conhece Natalie (Anna Kendrick), uma jovem nova funcionária da sua empresa que vai ensiná-lo uma coisa ou outra sobre a vida e o grande atrito acontecerá. Tudo isso é feito de forma muito sutil pelo diretor, que conta com o humor como meio de não transformar tudo em um grande melodrama (Danny McBride e Zach Galifianakis, um dos atores mais engraçados atualmente, de Se Beber, Não Case, fazem participações). A trilha sonora, com pérolas de Crosby, Stills & Nash e Elliott Smith, também é ótima e ajuda nessa sutileza.
George Clooney provavelmente nunca esteve tão bem. Seu papel é intimista e ao mesmo tempo uma bela representação do que um babaca pode fazer, a ponto de o casamento da irmã estar chegando e ele não estar nem aí. Clooney consegue fazer essa figura difícil virar extremamente humana. Enquanto isso, Vera Farmiga rouba a cena como a companheira de cama do bonitão. Mulher segura, que inspira admiração e que depois vemos que não é bem assim. Por fim, Anna Kendrick é a ingênua que tenta fazer Clooney mudar, acreditar que viver para sempre com alguém é legal e tudo isso. Três atuações inspiradas e dignas de todas as premiações que estão recebendo.
RECADO: Amanhã o blog ficará sem atualização por conta do aniversário deste blogueiro. Ele também merece celebrar.